5 de jun. de 2013

A coxinha bege.

Oi!!!

   Esses dias eu li um artigo muito bom sobre o que é ser coxinha. Aquela pessoa que nasce, estuda direitinho, faz inglês, faz uma faculdade, casa, tem filhos, compra apartamento, carro e viaja. Ou seja é o estereótipo de uma pessoa extremamente comum da classe média. E o que é que tem de errado nisso? Não está perfeita? Essa é a questão, está certo demais. Esta perfeição só existe dentro de uma bolha blindada da vida.
   Vamos exemplificar algumas coisa, eu chamo esse tipo de vida de "nude", termo usado em modismo recente para designar algo discreto, elegante e chic. Pois essa pessoa mora num apartamento (geralmente próprio ou em pagamento) e sua decoração se resume em ter uma parede bege, com um sofá camurça, almofadas marrons e beges, tudo sobre um tapete ocre. Ah, tem os quadros de reprodução de um artista pop famoso (em geral Picasso, Matisse ou Miró) comprado em uma das viagens. Mas pensa, seriamente, em adquirir uma reprodução de Romero Brito. Suas roupas seguem o mesmo padrão. Filmes e teatro só assistem os de comédia e romance, pois dramas mostram cenas de violência, fome, doença, e pasmem, morte - afinal quem assiste um filme em que alguém morre, só se for ficção.



   Você também não sabe o que tem de errado nisso? São essas pessoas que acham que ônibus atrapalho o trânsito, que mendigo é praga, que albergue de morador de rua é legal contanto que não seja no bairro dela, que bandido bom é bandido morto e que o mundo devia ser privatizado. Isso mostra o quanto essas pessoas vivem ilusões e não querem que sua bolha seja estourada, se inunda uma favela por onde ela é obrigada a passar para o trabalho, ela torce para que isso não atrapalhe o trânsito na manhã seguinte.
   O filme Beleza Americana retrata muito bem esse conceito e a rosa do filme exemplifica perfeitamente: uma flor linda, vermelha, perfeita, sem espinhos e sem cheiro. Só a aparência importa.

Sidnei Akiyoshi

30 de mai. de 2013

Silêncio

Pequeno Esclarecimento

   Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio… Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.

Mario Quitana

Silêncio.

   Existem vários tipos de silêncios. Que podem ser silêncios de ira ao silêncio meditativo. Nos tempos contemporâneos isso é visto de forma negativa; como, no tempo da informação, pode existir alguém querendo não falar? E tem gente que fala pelos cotovelos, sem dar bola para a máxima de que o silêncio é de ouro.
   Hoje venho pedir que calem a boca. Sei que assim, de supetão, soa duro. Mas muitas vezes é um mal necessário. Respira e vá fazer silêncio, existem várias formas de fazer silêncio; lendo um livro, ouvindo uma música, fazendo um doce incrivelmente delicioso, cuidando de um pequeno jardim, caminhando.
   Hoje vim falar disso, mas queria muito ficar em silêncio. Pois no silêncio algumas pessoas ficam azuis, e outras de súbito, até levitam.


Sidnei Akiyoshi

25 de mai. de 2013

LIMBO

Oi!!!

   Vamos jogar vídeo game???

   Eu particularmente gosto de jogos em geral; podem ser em tabuleiros, cartas, RPG, de rua e vídeo games. Não jogo tanto quanto gostaria pois tenho certa tendência a viciar, quem assiste Big Bang Teory entendo um pouco sobre o que estou falando. Então, me mantenho em um afastamento seguro. Mas essa postagem não é sobre vício ou a tentativa de criar um grupo on-line para jogar tudo o que aparecer...simmmm jogar, jogar, jogar....(pausa para o remedinho e limpar a baba, rsrsrs).
   Vim falar sobre um jogo específico que foi lançado ano passado: LIMBO. Eu ainda não joguei, mas já vi trechos dele no you-tube. É um jogo bem simples, nada desses jogos 3D com super definição, repletos de personagens e cenários deslumbrantes. Ele usa aquele tipo de jogo que é um bonequinho que corre da esquerda para a direita e pula, nem sequer atira. Até aí, tudo normal, o que surpreende é a temática. Uma criancinha que corre por um local desolado, iniciando numa floresta, em contraste num fundo esfumaçado que dele vemos apenas o contorno e o brilho dos olhos.
   É desolador ver o personagem correndo sem a gente saber exatamente o que ele procura, talvez apenas procure sobreviver. O jogo é de um silêncio absurdo, repleto de perigos, como aranhas gigantes, buracos, coisas desabando, seres chupando seus cérebros. Tem um trecho que atravessa um lago cheio de corpos de outras crianças, e descobre que ele será mais um. É uma fase difícil de passar, até descobrir que tem que pegar o corpo dessas crianças e jogar na armadilha para desativar.
   Mas apesar de parecer um jogo violento, não é. Reflete muito o que escrevo aqui, essa solidão, essa falta de perspectiva, essa sensação de que corremos para chegar a lugar nenhum. Vejam esse trechinho, na internet tem partes mais completas. E se forem jogar me chamem, to louco para jogar esse!!!


Sidnei Akiyoshi

20 de mai. de 2013

Cartas.

Oi!!!

   Hoje pensei muito sobre o que escrever aqui no blog, e nada vinha à mente. Nada que eu quisesse escrever, obviamente. Olhando para minha escrivaninha, pensei: se fosse uma carta não estaria nesse dilema, sempre há o que dizer numa carta. Nisso lembrei do projeto que ora eu me empenho mais, ora deixo um pouco de lado, mas nunca abandono; os "Amigos de papel". É assim que chamo as pessoas com quem troco correspondências (sim, cartas escritas à mão e enviadas pelo correio), tinha até umas regras; por exemplo: não escrever mais do que uma folha por carta. Isso é bom pois leva a mandar mais cartas; quando não tiver nada para escrever, mande três palavras de presente (isso eu sempre faço), afinal mais do o conteúdo, o receber uma carta é algo tão bom, tão bom, que devia fazer parte da cesta-básica para uma vida feliz.
   Tenho guardada mais de uma centena delas. Sim, troquei muitas cartas já. Meus amigos até ficam com vergonha de me responder pois uso meus rascunhos de desenhos como papel, e sempre têm um toque artístico nelas, mas é para que o prazer em ler seja ampliado e o desejo em responder mais ainda. Vou ressaltar aqui, receber uma carta escrita à mão de alguém querido seu é uma experiência única, em tempos contemporâneos repletos de tecnologias imediatistas soa como encontrar o bilhete premiado no chocolate Wonka.
   Experimente isso, troque cartas com alguém. Você verá que o que digo é a mais pura verdade. Mas deixa eu ir, ainda tenho umas cartas para escrever.

   E sim, eu tenho pena, tenho tinteiro, variados papéis de carta, cera de lacre, só falto um sinete (aceito presentes).

Sidnei Akiyoshi

15 de mai. de 2013

Ao mestre.

Oi!!!

   Hoje vou postar uma tradução de um texto de um poeta grego antigo, Anacreonte, feita pelo Prof. Antonio Medina Rodrigues que infelizmente desceu ao Hades essa semana. Esse poema representa bem o espírito desse professor, brincalhão mas apaixonado pelo que fazia. Gozava a vida com deleite, esticando a primavera o mais que podia. São pessoas como ele que nos fazem olhar a vida por um outro prisma, fora dessas caixinhas chatas.

Sidnei Akiyoshi


Anacreonte # 2

1.
Traz essa taça, ó rapazinho,
Para que agora um trago eu prove,
E cinco doses põe de vinho,
Uma de água com mais nove.
Eu decidi, sem insolência,
Honrar a Baco em compromisso,
Dispenso agora a exigência,
O formalismo, e mais serviço!
Não quero claque ou audiência. [Fr.4 Diehl]

2.
Detesto quem evoca
Prantos da fera guerra,
Enquanto os lábios molha
Ao vinho da cratera.
Por isso eu amo quem
Mistura Musa e Vênus,
E os dons da farra tem,
Esplêndidos, serenos.

3.
Alva me restou a fronte,
Me são têmporas grisalhas,
Vão meus verdes anos: onde?
Já meus dentes são limalha!
Resta-me viver da vida
Um sopro que vai morrendo,
Por que choro sem guarida?
Pelo Tártaro, que é horrendo.
Mas terrível é que a ida
Não tem volta, é só descendo

Trad. Antonio Medina Rodrigues.

10 de mai. de 2013

Made in China

Oi!!!

   Espiritualidade. Esse tema tem rondado pessoas próximas a mim nesses últimos tempos, mas em verdade isso sempre me rondou. Não falo de religião especificamente, mas de espiritualidade. O que em geral as pessoas vão buscar dentro de uma religião, para se religarem ao plano espiritual. E que no fundo, basicamente, é uma preparação para a morte.
   Mas como ser espiritualizado num mundo contemporâneo? Onde o consumismo cada vez maior e mais fácil impulsiona as pessoas a uma vida materialista, o "made in china" veio para democratizar todo e qualquer produto de desejo, de cueca a celular. E cada vez mais as pessoas lotam igrejas, templos e terreiros para pedir mais dinheiro para ter mais objetos de desejo; afinal não têm nenhuma garantia de que no paraíso vá ter o perfume que gostam, melhor prevenir e levar um junto, unzinho passa na alfândega do paraíso.
   É o que eu digo, nessa contemporaneidade o desejo é o bem mais consumido, que segundo Jung é o que leva a felicidade, e assim que satisfazê-lo, substitui-se por outro desejo e assim infinitamente, pois não amamos o que temos mas sim o que desejamos. Mas e a espiritualidade no meio disso tudo? Pois é, eu que sou avesso a religiões, sempre estive a procura da minha espiritualidade; e não é que encontrei algo made in china!!! Sim, dentro da filosofia chinesa existe o Taoísmo e acho que vou me dar bem com ele. A prática recorrente: meditação. Vai ser uma luta meditar em tempos contemporâneos, mas depois eu conto aqui. E você já se espiritualizou? Soube de uma leva de objetos sagrados para adoração made in china, corre lá, é baratinho.
Sidnei Akiyoshi

Por que tão no alto...

5 de mai. de 2013

Aceite! A culpa é sua.

Oi!!!

   Hoje eu vou relembrar minha terapia. Sim terapia é algo que ajuda e muito em nossas vidas, recomendo. Eu fiz uma chamada filosofia clínica, que consiste em você contar sua história repetidas vezes e com isso o terapeuta vai mostrando onde você funciona e onde não. Um dos pontos que julgo fundamentais foi a descoberta da culpa, ou responsabilidade, ou simplesmente admitir que estava errado. Somos criados com uma espécie de terceirização da culpa. Vamos exemplificar: chegar atrasado a um encontro, qualquer um. Geralmente chegamos com frases do tipo: estava um trânsito; o despertador não tocou; foi difícil achar uma vaga para estacionar; choveu; e assim por diante. Em geral não assumimos a culpa, terceirizamos (seriam tempos de neoliberalismo?). Comecei a prestar mais atenção onde terceirizava minhas culpas e comecei a assumi-las, talvez o atraso seja a mais comum delas mas também a mais desagradável, pois envolve terceiros. E aquela desculpa de ter atrasado só dez minutos é falsa, pois a pessoa chegou dez minutos antes, portanto já está te esperando a vinte. E desculpas funciona quando acontece uma ou outra vez, mais que isso é desrespeito. Portanto tem que focar em aceitar seu erro e localizar o que você faz que gera ele. No caso do atraso é razoavelmente simples, sair mais cedo já resolve mais da metade dos atrasos. E isso vale para todo a vida, de ganhar uns quilos a mais à corrupção no país. Sim, é tudo culpa minha.

Sidnei Akiyoshi


30 de abr. de 2013

Cé-re-bro...

Oi!!!

   As vezes eu tenho a sensação de estar perdido na vida. Sabe quando você para e olha para o lado e vê todo mundo caminhando no automático? Não importa fazendo o que: trabalho, estudos, família, diversão; há aquela sensação de que fazem porquê tem de fazer, como se não tivessem escolha. Uma anestesia geral.Eu tenho isso com uma certa frequência e os disparadores são bem diversos, mas praticamente todos são relacionados à arte. Seja um quadro, um livro ou um filme. Na maioria das vezes falta um interlocutor para partilhar isso e você fica assim, com cara de bobo, rodeado de mortos vivos.


20 de abr. de 2013

An empty cup of coffee.

Oi!!!

   Estava sentado em frente ao computador olhando imagens a esmo. Não que houvesse real interesse, apenas tentava prender algo com qualquer outro algo. Aquilo já perdurava mais que um pacote de bolachas e um resto de café frio. O telefone cumpre sua função de despertar, já são horas de levantar, fazer um café, sair. Continuo olhando imagens, pulando de página em página. Numa distração ou erro, fecho o nevegador. Enfim, resolvo levantar, fazer um café, sair. Faço o café. Sento em frente ao computador para ver imagens a esmo.


Sidnei Akiyoshi

15 de abr. de 2013

Aquarelência

Oi!!!

   Hoje olhando essa aquarela de Stan Miller decidi falar um pouco sobre paciência.
   Quem nunca trabalhou com aquarela não tem noção de como é difícil. Sempre digo a meus alunos que aquarela é a última técnica que eles devem aprender, a pintura a óleo é a primeira, pois permite que você erre a vontade. A aquarela não. Pintar uma aquarela requer em primeiro lugar um bom material: bons pincéis (um bom custa aproximadamente 150 reais), bons pigmentos (os em barra são os melhores) e principalmente bons suportes, ou seja, papéis de qualidade. É claro que você pode treinar com algo mais barato, mas a diferença de resultado é gritante. Depois, muita paciência. O princípio da aquarela é saber o que não pintar, pois são as áreas que ficarão em branco. Então você tem que treinar a pincelada exaustivamente, pois depois de feito não pode ser corrigido. As sobreposições tem que ser perfeitas para propiciar os escuros necessários. É quase um trabalho de vidente, pois se trabalha com água pigmentada sobre um superfície que vai sugar essa água, é você a mercê do destino, mas que você aprende com o tempo a saber os caminhos que ela percorre. Aí então, quando você controlar o futuro, saberá pintar uma aquarela.



   E a vida o que tem a ver com isso? Não há mais tempo para aquarela. Não há mais tempo para a paciência. Não há mais tempo. Tudo é muito fugaz. Tudo é muito imediato. Não há espaço nem para a pintura a óleo. Vivemos num tempo de Assemblage*, onde só o pronto é rápido é o suficiente.

Sidnei Akiyoshi

*Assemblage: O termo assemblage é incorporado às artes em 1953, cunhado pelo pintor e gravador francês Jean Dubuffet (1901-1985) para fazer referência a trabalhos que, segundo ele, "vão além das colagens". O princípio que orienta a feitura de assemblages é a "estética da acumulação": todo e qualquer tipo de material pode ser incorporado à obra de arte. (Enciclopédia Itaú Cultural).


10 de abr. de 2013

50 coisas

Oi!!!

   Esses dias assisti a um programa de TV sobre organização da casa. Era um quartinho atulhado de coisas, principalmente sapatos. Mais da metade das coisas foram doadas ou jagadas fora.
   Isso é reflexo de nosso Neo-liberalismo implantando pela recem falecida Margaret Thatcher, onde todos devem comprar mais e mais para a economia girar. Pois quanto mais se compra, mais se produz, quanto mais se produz, mais barato fica, quanto mais barato mais se compra. Mas isso é pernicioso, pois não precisamos de tantas coisas. Com a tecnologia fica muito pior, a cada ano se faz necessário trocar tudo. Então quero que reflitam um pouco comigo:

SE PUDESSE TER APENAS 50 COISAS, O QUE VOCÊ TERIA?

Sidnei Akiyoshi


31 de mar. de 2013

NAAN

Oi!!!

   Hoje estava numa situação extrema. Literalmente havia apenas farinha no armário. O que fazer? Lembrei daqueles pães chatos feitos sobre pedra que tanto os índios como os árabes fazem. É bem simples: 3 xícaras de farinha, 2 colheres de azeite, 1 colher pequena de sal, uma de açúcar, 1 xícara de leite ou água e um condimento seco, no caso utilizei orégano. Mistura tudo, abre um disco e assa ou frita sem óleo, sobre a frigideira mesmo, já que não tenho aquela fogueira com uma pedra em cima. E pronto, fica bom e sobrevivi mais um dia.


   Mas o que isso tem a ver com o blogue? Enquanto fazia fiquei pensando sobre o comodismo de termos pão de forma pronto em pacotes. Não que isso seja ruim, mas que vivemos numa sociedade do pronto do imediato. Sem termos que criar nada, uma vida sem situações extremas. Afinal quem quer ir plantar trigo, colher, moer e fazer seu próprio pão? Marcia Tiburi disse que sem dor não há arte. Então estamos fadados a reproduções de Romero Brito. Quadros de felicidades enlatadas e coloridas. Naan, naan, naan...

Sidnei Akiyoshi

27 de mar. de 2013

"Colecionadores de olhares desaparecidos”

Oi!!!

   Sim, estou a procura de uma agulha num palheiro!!!

Fio - Cildo Meireles - 1990/95 - Fio e agulha de ouro em fardo de palha.


   Estes últimos tempos tenho me questionado muito. Como artista, como pessoa, como ser em si. Muito mais a procura de uma pergunta do que uma resposta. Pois as respostas geralmente não servem ou se servem já não é mais a resposta que procuro, pois se a encontrei a pergunta deixou de existir. Talvez pela situação financeira difícil, fique realmente difícil continuar em arte, mas isso nunca impediu de fazer arte, então não é uma questão inibidora do pensar em si, talvez dificulte um pouco o fazer, mas isso tudo é possível canalisar para outros meios mais acessíveis de produção, como o vídeo ou o virtual, ou mesmo o mais básico dos fazeres artísticos: o desenho.
   A questão principal é sobre o que falar. Muito já foi dito, muito está sendo dito. Mas nada realmente cria aquele "estalo" que me move, nada gera o desejo criador. O que faço é reproduzir o mesmo, que nem meu é, apenas reconto aquilo que alguém já contou. Procurar esse olhar desaparecido está cada vez mais difícil. Sei como procurar; basta olhar para aquilo que está, ver o que é e questionar o por quê? Mas mesmo assim tudo parece ser tão maçante. Talvez o tédio seja o principal elemento, mas será que David Hockney já não disse tudo? Talvez a morte da arte seja o mote principal, ou o luto segundo Marcia Tiburi. Devemos beber o defunto (arte) e num silêncio constrangedor, entre sussurros maliciosos, enaltecê-la. Talvez seja isso, produzir o silêncio do velório até que esse período de luto acabe e possamos viver novamente. Ou quem sabe aguardar o terceiro dia.... na dúvida verei se nesse palheiro alguma galinha botou algum ovo e garantir o meu. Omeletes são ótimas.

Sidnei Akiyoshi

14 de mar. de 2013



Ilusão

Há um deserto em meus olhos.
Sirocos.
Findam os ataques do norte;
trégua entre cílios.
Num enlace, unem-se.
...
Nasce a escuridão.
Os olhos tateiam.
Buscam imagens onde não há.
É somente negro sobre negro.
Inquietos,
se voltam para o meu ser.
Inquirem.
Exigem imagens.
Sob olhares incisivos e ameaçadores,
crio.
...
Sonho.
Inundo meus olhos.
Iludo.

Sidnei Akiyoshi

10 de mar. de 2013

Política: manual teórico.

Oi!!!

   Esse fim de semana ocorreu a manifestação de repúdio contra a nomeação do Pastor Marco Feliciano no congresso nacional. Ela teve início na internet no facebook fazendo o chamamento para a manifestação de corpo presente nas ruas. A manifestação foi feita. Não tinha tanta gente como se esperava, mas o recado foi passado. Foi?
   Então... a política é mais complicada do que isso. É claro que manifestações indicam as intenções do povo, mas estão longe de fazerem mudanças significativas no processo político. Pois fazer política cansa, é chato e nem sempre se consegue o que se desejava, pois é um jogo de trocas. Sim, para se conseguir algo é necessário ceder, e nem sempre o que está em jogo é o mais correto, o mais justo ou aquilo que você acredita. Isso é política.
   Dentro da política as comisões tem papel importante, pois são nelas que os temas pertinentes à sociedade são discutidos e os textos redigidos, para só então serem enviados para votação na câmara com seu devido parecer, ou seja já chega bem mastigado. Por isso são tão disputadas.
   Tá, e o que tudo isso tem a ver com a sociedade contemporânea? Simples, fazer política é desgastante. Ficar de fora falando que quem tá dentro não faz direito é muito cômodo, Difícil é enfrentar os dinossauros da política lá dentro, e o pior, dentro do jogo deles, que não é nada limpo. Só quando entrarmos no sistema e lá mudarmos é que a política será feita com mais honestidade, enquanto não for feito isso continuaremos gastando muita sola de sapato em manifestações infinitas.
   Mas fazer isso da muito trabalho. Verdade. A sociedade atual não quer esse tipo de trabalho. Verdade. Qual o próximo post mesmo...


5 de mar. de 2013

Tarde demais para flores.

Em nosso quintal só nasciam avencas.
Plantas que não gostam de sol,
que gostam de umidade.
Folhas pequeninas.
Bem verdinhas.
Frágeis.
Nunca nenhum girassol nasceu naquele jardim.

Sidnei Akiyoshi


27 de fev. de 2013

Silêncio Prolixo

Estou num momento de questionamentos sobre a arte. Ou seja, estou questionando a vida. Estou abrindo uma nova pesquisa em meus trabalhos e procuarando aquilo que me inquieta. Ainda não sei o que será, pois muitas coisas me inquietam no mundo, solidão, morte, transformação, carência. Ver outros artistas ajuda a refletir sobre o que fizeram e o porquê. Esse video da Marina Abramivich meet Ulay mexeu comigo, talvez pelo silêncio ser tão ensurdecedor, talvez por dizer tanto, talvez por ser tão pouco tempo para dizer tanta coisa, mas acredito que tenha sido por dizer o necessário naquele momento. E acho que isso é o que falta na sociedade contemporânea, o necessário.


Um minuto de silêncio compartilhado é mais profundo do que uma vida de falas superficiais.

4 de jan. de 2013

Pequenas Torturas.

Ikebana.

Flor viva. Esse é o significado. Mas sabendo que a flor começa a morrer assim que é cortada da planta torna-se interessante o significado. Mas isso vai muito além. O Ikebana é um arranjo dedicado aos deuses, para ser colocado no altar. Portanto sua montagem é repleta de rituais e prega uma espiritualidade. Unir flores vivas com galhos secos é pensar a relação entre vida e morte, entre corpo e espírito. Transformar o arranjo em algo belo passa pela tortura, pois as posições acrobáticas das plantas servem para dar harmonia ao todo, e é necessário torcê-las até quase quebrar para montar o que deseja. É preciso chegar a beira do assassinato para encontrar a beleza, sem isso não há beleza, além disso: a morte.

16 de dez. de 2011

Ratos - Conto que está na final do Mapa Cultural Paulista.


Ratos

Acorrento Odisseu. Há ratos. Odeio ratos. Antes não haviam ratos na América. Os europeus trouxeram os ratos. Nenhum flautista. Somente ratos. Os ratos eram de todos os cantos da Europa. Acredito nisso porque uns comeram meus Baudelaires, outros meus Nietzsches e até um Platão foi levemente beliscado. Mas a gota d`água foi quando aprenderam português. Enquanto comiam revistas e jornais eu não me importava. Outro dia cheguei em casa e minha doce Clarice estava em frangalhos. Fossem as baratas, tudo bem, teriam esse direito. Mas ratos, não! Comprei veneno. Um barato. Espalhei pela casa. Longe do Odisseu. Odisseu é meu cão. Meu cão europeu. Cão europeu que come ração cara. Algum desígnio divino o fez livre. E assim como Odisseu foi para muito longe, Odisseu foi muito além. Odisseu conheceu Cleópatra. Eu não.

25 de nov. de 2011

* A imagem central é a última (9), as outras estão na sequência (de acordo como elas estão expostas no MAC).
 Série Trágica de Flávio de Carvalho – Uma tradução.
Feita durante visitação à exposição que está no MAC Ibirapuera
com a turma de pós da Prof. Carmem Aranha.

1. Minha mãe está morrendo. O suor em sua face revela seus humores em convulsão. O cansaço de lutar contra essa morte. A favor de uma vida, exauri suas forças.
2. Um sono que por instantes foi tranquilo, revela uma mão tensa, quase um sinal, dizendo para esperar mais um pouco, nem tudo foi dito.
3. A dor se mostra terrível. Marca seus traços. A boca emite um ruído mudo contra uma visão que está em seus olhos fechados.
4. Passou. Ainda estou viva. Ainda tenho um sopro de vida e isso me acalma, me conforta, me faz ser o que sou: mãe.
5. Prescinto que não posso mais lutar. O momento está chegando. Tenho meu último sonho, tomo meu último ar.
6. Ela chegou! Arranca minha vida de forma violenta. Meu corpo se nega a aceitar. Me agarro como posso.
7. O último suspiro se foi. É apenas a alma pendendo seu último fio de vida, seu último sopro de existência.
8. Ficou o cansaço do corpo, mas que não sinto mais. Apenas carne sem vida. Exausto. Exaurido.
9. “Essa não é mais minha mãe”.